Arquivo mensal: fevereiro 2015

Problema 2: Processos químicos sem controle não conseguem explicar a origem do código genético

Imagem: Mar primordial, em Serendigity/Flickr

Nota do tradutor: esta é a parte 2 da série de 10 artigos sobre os problemas científicos da evolução biológica e química. A série é baseada no capítulo “The Top Ten Scientific Problems with Biological and Chemical Evolution” de autoria de Casey Luskin no livro More than Myth, editado por Paul Brown e Robert Stackpole (Chartwell Press, 2014). Eis a lista de todos os artigos: Artigo introdutório, Problema 1, Problema 2, Problema 3, Problema 4, Problema 5, Problema 6, Problema 7, Problema 8, Problema 9, Problema 10.


Vamos supor que um mar primordial repleto dos blocos de construção da vida realmente tivesse existido na Terra primitiva e que, de alguma forma, tenha produzido proteínas e outras moléculas orgânicas complexas. Os teóricos acreditam que o próximo passo na origem da vida é que — totalmente por acaso — moléculas cada vez mais complexas se formaram até que algumas delas começaram a se auto-replicar. Daí em diante, eles acreditam que a seleção natural darwiniana tomou conta, favorecendo aquelas moléculas que eram mais capazes de fazer cópias de si mesmas. Eventualmente, eles acreditam, era inevitável que essas moléculas poderiam evoluir para máquinas complexas — como as usadas no código genético de hoje — para sobreviverem e se reproduzirem.

Os modernos teóricos da origem da vida já explicaram como ocorreu essa passagem crítica de substâncias químicas inertes e não-vivas até sistemas moleculares auto-replicantes? A hipótese mais promissora para a origem da primeira vida é chamada de “mundo do RNA”. Em células vivas, a informação genética é carregada pelo DNA, e a maioria das funções celulares são realizadas pelas proteínas. No entanto, o RNA é capaz de ambas as tarefas, transportando informação genética e catalisar algumas reações bioquímicas. Como resultado, alguns teóricos postulam que a primeira vida poderia ter usado só RNA para cumprir todas essas funções.

Mas há muitos problemas com essa hipótese.

Em primeiro lugar, as primeiras moléculas de RNA teriam de surgir por processos químicos não biológicos e sem controle. Mas o RNA não é conhecido por ser montado sem a ajuda de um químico laboratorial treinado, controlando o processo de maneira inteligente. O químico da Universidade de Nova York Robert Shapiro criticou os esforços daqueles que tentaram produzir RNA no laboratório, afirmando: “A falha está na lógica — que esse controle experimental por pesquisadores em um laboratório moderno poderia estar disponível na Terra primitiva” [15].

Em segundo lugar, enquanto tem sido demonstrado que o RNA executa muitas funções na célula, não há nenhuma evidência de que ele possa executar todas as funções celulares necessárias atualmente desempenhadas por proteínas [16].

Em terceiro lugar, a hipótese do mundo do RNA não explica a origem da informação genética.

Defensores do mundo do RNA sugerem que, se a primeira vida auto-replicante foi baseada em RNA, seria necessária uma molécula de 200 a 300 nucleotídeos de comprimento [17]. No entanto, não há leis físicas ou químicas conhecidas que determinam a ordem dos nucleotídeos [18]. Para explicar a ordem dos nucleotídeos na primeira molécula de RNA auto-replicante, os materialistas devem recorrer ao mero acaso. Mas a chance de especificar, digamos, 250 nucleotídeos em uma molécula de RNA por acaso é de cerca de 1 em 10150 – abaixo do limite de probabilidade universal, ou de eventos que estão muito longe do possível de ocorrer na história do universo [19]. Shapiro expõe o problema desta maneira:

O aparecimento súbito de uma grande molécula auto-replicante tal como o RNA era extremamente improvável… [A probabilidade] é tão ínfima tal que o seu acontecimento uma vez sequer em qualquer lugar do universo visível já contaria como uma obra de muita sorte [20].

Em quarto lugar — e mais fundamental –, a hipótese do mundo do RNA não explica a origem do código genético em si. A fim de evoluir para a vida baseada em DNA e proteínas que existem hoje, o mundo do RNA precisaria desenvolver a capacidade de converter informações genéticas em proteínas. No entanto, este processo de transcrição e tradução requer um conjunto grande de proteínas e máquinas moleculares, que são eles mesmos codificados por informação genética. Isso traz o típico problema do ovo e da galinha, onde as enzimas essenciais e máquinas moleculares são necessárias para executar a tarefa mesma que as constroem.

A galinha e o DVD

Para avaliar esse problema, considere a origem do primeiro DVD e do primeiro leitor de DVD. DVDs são ricos em informações, mas sem os mecanismos do leitor de DVD para ler o disco, processar sua informação, e convertê-la em uma imagem e som, o disco seria inútil. Mas e se as instruções para a construção do primeiro aparelho de DVD só fossem encontradas codificadas em um DVD? Você nunca poderia rodar o DVD para aprender a construir um leitor de DVD. Então como o primeiro disco e o primeiro leitor de DVD teriam surgido? A resposta é óbvia: um processo controlado com objetivo — design inteligente — é necessário para produzir tanto o leitor como o disco ao mesmo tempo.

Em células vivas, as moléculas de transporte de informação (por exemplo, DNA ou RNA) são como o DVD, e a maquinaria celular que lê essa informação e a converte em proteínas são como o leitor de DVD. Assim como a analogia do DVD, a informação genética nunca poderia ser convertida em proteínas sem a maquinaria adequada. No entanto, nas células, as máquinas necessárias para o processamento da informação genética no RNA ou DNA são codificados por essas mesmas moléculas genéticas – elas executam e controlam a própria tarefa que as constrói.

Este sistema não pode existir, a menos que tanto a informação genética quanto o mecanismo de transcrição/tradução estejam presentes ao mesmo tempo e que ambos falem a mesma língua. O biólogo Frank Salisbury explicou esse problema em um artigo do American Biology Teacher não muito depois de o funcionamento do código genético ter sido descoberto pela primeira vez:

É interessante falar sobre moléculas de DNA replicantes provenientes de um mar-sopa, mas nas células modernas essa replicação requer a presença de enzimas adequadas… A ligação entre o DNA e a enzima é altamente complexa, envolvendo RNA e enzima para a sua síntese em um modelo de DNA; ribossomos; enzimas para ativar os aminoácidos; e moléculas de RNA de transferência… Como, na ausência da enzima final, a seleção poderia agir sobre o DNA e todos os mecanismos para replica-lo? É como se tudo devesse acontecer ao mesmo tempo: todo o sistema deve vir a existir como uma unidade, ou ele é inútil. Pode muito bem existirem maneiras de sair deste dilema, mas eu não as vejo no momento [21].

Apesar de décadas de trabalho, os teóricos da origem da vida ainda estão perdidos em explicar como esse sistema surgiu. Em 2007, o químico de Harvard George Whitesides recebeu a Medalha Priestley, o maior prêmio da American Chemical Society. Durante seu discurso de aceitação, ele deu essa análise firme, reproduzida na respeitada revista Chemical and Engineering News:

A origem da vida. Este problema é um dos grandes da ciência. Ele começa colocando a vida, e nós, no universo. A maioria dos químicos acreditam, como eu, que a vida surgiu espontaneamente a partir de misturas de moléculas na Terra pré-biótica. Como? Eu não faço idéia. [22]

De forma similar, o referido artigo em Cell Biology International conclui: “Novas abordagens para investigar a origem do código genético são necessárias. As limitações da ciência histórica são tais que a origem da vida poderá nunca ser entendida” [23]. Ou seja, as limitações poderão nunca ser entendidas, a menos que os cientistas estejam dispostos a considerar explicações científicas que levem em conta a intencionalidade, como o design inteligente.

Mas há um problema muito mais profundo com as teorias da evolução química, bem como as da evolução biológica. Isto não se refere apenas à capacidade de processar informação genética através do código genético, mas à origem mesma da informação.

Texto traduzido e adaptado de ENV.

Referências:

[15] Richard Van Noorden, “RNA world easier to make”, Nature News (13/05/2009), http://www.nature.com/news/2009/090513/full/news.2009.471.html, ou https://archive.is/7PvCJ.

[16] Veja Stephen C. Meyer, Signature in the Cell: DNA and the Evidence for Intelligent Design, p.304 (New York: HarperOne, 2009).

[17] Jack W. Szostak, David P. Bartel, e P. Luigi Luisi, “Synthesizing Life”, Nature, 409: 387-390 (18/01/2001).

[18] Michael Polanyi, “Life’s Irreducible Structure”, Science, 160 (3834): 1308-1312 (21/06/1968).

[19] Veja William A. Dembski, The Design Inference: Eliminating Chance through Small Probabilities (Cambridge University Press, 1998).

[20] Robert Shapiro, “A Simpler Origin for Life”, Scientific American, pp. 46-53 (junho de 2007).

[21] Frank B. Salisbury, “Doubts about the Modern Synthetic Theory of Evolution”, American Biology Teacher, 33: 335-338 (setembro de 1971).

[22] George M. Whitesides, “Revolutions In Chemistry: Priestley Medalist George M. Whitesides’ Address”, Chemical and Engineering News, 85: 12-17 (26/03/2007).

[23] J.T. Trevors e D.L. Abel, “Chance and necessity do not explain the origin of life”, Cell Biology International, 28: 729-739 (2004).

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Como sabemos que o Design Inteligente é uma teoria científica?

Uma pergunta que eu sempre recebo é se o Design Inteligente pode ser classificado como uma “teoria científica”. A palavra “teoria” é usada tantas vezes como se todos estivessem de acordo com o seu significado. Para responder essa pergunta, em primeiro lugar, devemos considerar o significado da palavra “teoria”.

O filósofo Peter Kosso explica que chamar alguma idéia de “teoria” diz muito pouco sobre o grau de certeza na qual a idéia se apoia. Como ele afirma, “nem lei e nem teoria” tratam sobre algo verdadeiro ou falso ou sobre algo ser bem testado ou especulativo. Na visão de Kosso, uma teoria “descreve aspectos da natureza que estão além do que podemos observar e descreve aspectos que podem ser usados para explicar o que podemos observar”. Assim, “algumas teorias são verdadeiras (teoria atômica) enquanto algumas são falsas (teoria calórica), e o método científico é o que nos direciona para decidir qual é qual”.

A Teoria do Design Inteligente (TDI) se encaixa nessa definição de teoria? Sim, ela se encaixa. A TDI é uma teoria de detecção de design, nos permitindo explicar como determinados aspectos de complexidade biológica e outras complexidades naturais surgiram. Por isso, usa o método cientifico para fazer suas afirmações.

O método científico é comumente descrito como um processo de quatro etapas que envolvem observação, hipótese, experimentos e conclusão. A TDI começa com a observação de que agentes inteligentes produzem Informação Complexa e Específica (ICE). Os teóricos do Design Inteligente (chamados de inteligentistas) levantam a hipótese de que, se um objeto natural foi concebido, este irá conter altos níveis de ICE. Os cientistas, em seguida, realizam testes experimentais sobre os objetos naturais para determinar se eles contêm informações complexas e específicas. Uma maneira fácil para testar a ICE é a Complexidade Irredutível, que pode ser testada por Engenharia Reversa em estruturas biológicas através de experimentos genéticos para determinar se eles exigem todas as suas peças para funcionar. Quando os cientistas desvendam experimentalmente a Complexidade Irredutível em uma estrutura biológica, eles concluem que ela foi projetada.

Conhecendo a definição de “teoria” dos mais eminentes criticos do DI

Embora Peter Kosso possa discordar, acredita-se que a TDI se enquadra em sua definição de “teoria”. Mas como foi sugerido acima, existem muitas definições de “teoria” por aí. Como podemos saber se a TDI é uma teoria científica? Tome a definição de “teoria” fornecida pelos críticos científicos mais eminentes da TDI e se ela satisfizer a definição, então há uma boa chance da TDI ser considerada devidamente como uma teoria científica.

Provavelmente os opositores científicos mais eminentes da Teoria do Design Inteligente possam ser encontrados entre os membros da Academia Nacional de Ciências dos EUA (National Academy of Sciences, NAS). Diferentemente de Peter Kosso, a NAS define “teoria” como uma ideia que está bem testada e bem suportada pelas evidências científicas:

  • “uma explicação bem fundamentada de algum aspecto do mundo natural que pode incorporar fatos, leis e hipóteses testadas” (Science & Creationism: A View from the National Academy of Sciences, National Academy Press, 1999);
  • “uma explicação detalhada de alguns aspectos da natureza, que é apoiada por um vasto conjunto de evidências” (Science, Evolution & Creationism, National Academy Press, 2008).

Mesmo que aceitemos a definição mais rigorosa da NAS sobre teoria, a TDI é mais do que qualificada.

Quando somos confrontados com testes múltiplos, é melhor dividi-lo em etapas. Se preenchemos todas as “etapas”, então somos aprovados no teste. Vamos usar esse método aqui para analisar se a TDI é uma teoria:

  1. A TDI deve fornecer “uma explicação de algum aspecto do mundo natural” e uma “explicação detalhada de alguns aspectos da natureza”;
  2. A TDI deve “incorporar muitos fatos, leis e hipóteses testadas”;
  3. A TDI deve ser “bem fundamentada” e “apoiada por um vasto conjunto de evidências”.

Etapa 1: A TDI deve fornecer “uma explicação de algum aspecto do mundo natural” e uma “explicação detalhada de alguns aspectos da natureza”.

A TDI não é apenas uma explicação de “algum aspecto do mundo natural”: na verdade ele explica muitos aspectos do mundo natural. Se apenas pensarmos em termos de grandes categorias, a TDI propõe que a causa inteligente é a melhor explicação para os eventos históricos, como:

  • A origem do ajuste fino do universo para a vida complexa;
  • A origem dos níveis extremamente altos de Informação Complexa e Especificada no DNA;
  • A origem de sistemas integrados necessários para o arranjo fisiológico dos animais;
  • A origem de muitos sistemas de Complexidade Irredutível encontrada em organismos vivos.

Assim a TDI realiza essa etapa: é uma explicação de muitos aspectos do mundo natural, sobretudo muitos aspectos da complexidade biológica.

Etapa 2: A TDI deve “incorporar muitos fatos, leis e hipóteses testadas”.

A TDI realiza facilmente essa etapa. Ela incorpora muitos fatos, leis e hipóteses testadas, incluindo:

  • As leis e constantes do universo conhecido e os coloca juntas em uma teoria unificada, para explicar porquê elas estão ajustadas para produzir parâmetros físicos favoráveis à vida;
  • Muitos fatos conhecidos sobre o sequenciamento do DNA, bem como as hipóteses testadas de que eles estão bem ajustados para executar funções biológicas;
  • Uma infinidade de hipóteses testadas sobre o abrupto aparecimento geológico de novos filos no registro fóssil, bem como numerosos fatos da bioquímica e biologia dos animais sobre o tipo e quantidade de informação integrada necessária para coordenar novos tipos de proteínas, tipos de células, tecidos e órgãos em novos arranjos fisiológicos funcionais;
  • Muitas hipóteses testadas sobre a presença de complexidade irredutível em sistemas biológicos, evidenciados por experimentos genéticos que têm mostrado que a Complexidade Irredutível é um fenômeno real;
  • A proposição de novas leis, como a Lei da Conservação da Informação, novos princípios sobre as causas de altos níveis ICE, novos métodos para medição de complexidade e informações funcionais, e novas hipóteses sobre a ubiquidade do ajuste fino em muitos aspectos da cosmologia e biologia.

Etapa 3: A TDI deve ser “bem fundamentada” e “apoiada por um vasto conjunto de evidências”.

Essa etapa é única, porque ela coloca “teoria” nos olhos de quem vê. Se você acha que a TDI está correta (ou seja, “bem fundamentada”), então ela vai se qualificar como uma teoria científica. Se você não acha que está correta, então você vai pensar que não é bem fundamentada e a TDI não será qualificada como uma teoria. Na prática, esta etapa mede questões subjetivas sobre o que as pessoas acreditam a respeito de uma idéia, ao invés de fazer perguntas objetivas sobre a natureza básica da idéia que está sendo proposta. É provavelmente em razão disso que pensadores cuidadosos como Peter Kosso excluem expressamente essa etapa de sua definição de “teoria”.

No entanto, a TDI também cumpre os critérios da NAS, e um vasto conjunto de evidências pode ser apresentado para defender a teoria. A TDI está bem fundamentada porque um número significativo de estudos confirmaram as previsões da teoria, tais como:

  • A física e a cosmologia continuam a descobrir níveis cada vez mais elevados de ajuste fino. Muitos exemplos podem ser citados, mas este é impressionante: a entropia inicial do universo precisou ter sido ajustada na proporção de 1 parte em 1010123 para que o universo fosse favorável a vida. Com uma diferença mínima nesse ajuste, não seria possível a vida no Universo. Novas teorias cosmológicas, como a Teoria das Cordas ou a Teoria do Multiverso apenas servem para barrar as perguntas sobre o ajuste fino, e acabam aumentando a necessidade desse ajuste;
  • Testes de sensibilidade mutacional mostram cada vez mais que as sequências de DNA são altamente ajustadas para gerar proteínas funcionais e executar outras funções biológicas;
  • Estudos da epigenética e da biologia de sistemas estão revelando mais e mais como os organismos são integrados (cibernética), da bioquímica até a macrobiologia, e mostrando funções celulares básicas incrivelmente bem ajustadas;
  • Experimentos genéticos demonstram Complexidade Irredutível, como no flagelo bacteriano, ou nas características de multimutação onde seriam necessárias várias mutações simultâneas para ganhar uma vantagem. Isto é mais ajuste fino.

A TDI é fundamentada por um vasto conjunto de provas que vão desde a física à cosmologia, da bioquímica à biologia animal, da biologia de sistemas e a epigenética à paleontologia. A TDI ultrapassa em muito as exigências definidas pela NAS sobre o que é uma “teoria”.

Texto traduzido e adaptado de Evolution News & Views.

Problema 1: Não existe um mecanismo viável para gerar uma sopa primordial

Concepção artística do planeta Terra primitivo

Concepção artística do planeta Terra primitivo. Imagem: http://spaceart1.ning.com/photo/early-earth-1

Nota do tradutor: esta é a parte 1 da série de 10 artigos sobre os problemas científicos da evolução biológica e química. A série é baseada no capítulo “The Top Ten Scientific Problems with Biological and Chemical Evolution” de autoria de Casey Luskin no livro More than Myth, editado por Paul Brown e Robert Stackpole (Chartwell Press, 2014). Eis a lista de todos os artigos: Artigo introdutório, Problema 1, Problema 2, Problema 3, Problema 4, Problema 5, Problema 6, Problema 7, Problema 8, Problema 9, Problema 10.


De acordo com o pensamento convencional entre teóricos da origem da vida, a vida surgiu na Terra primitiva por meio de reações químicas desgovernadas por volta de 3 a 4 bilhões de anos atrás. A maioria dos teóricos acreditam que havia muitas etapas envolvidas na origem da vida, mas a primeira etapa teria envolvido a produção de uma sopa primordial — um mar à base de água e moléculas orgânicas simples — do qual a vida teria surgido. Embora a existência desta “sopa” tenha sido aceita como fato inquestionável durante décadas, esta primeira etapa na maioria das teorias da origem da vida enfrenta inúmeras dificuldades científicas.

Em 1953, um estudante de pós-graduação na Universidade de Chicago chamado Stanley Miller, junto com seu orientador acadêmico Harold Urey, realizaram experimentos com a esperança de produzir os blocos de construção da vida em condições naturais na Terra primitiva [4]. Esses “experimentos de Miller-Urey” pretendiam simular raios atingindo os gases na atmosfera da Terra primitiva. Depois de executar os experimentos e deixar os produtos químicos se estabilizarem por um período de tempo, Miller descobriu que os aminoácidos — os blocos de construção das proteínas — tinham sido produzidos.

Durante décadas, esses experimentos têm sido aclamados como uma demonstração de que os “blocos de construção” da vida poderiam ter surgido sob condições naturais e realistas, semelhantes à Terra [5], corroborando a hipótese de sopa primordial. No entanto, também tem ficado conhecido há décadas que a atmosfera primitiva da Terra era fundamentalmente diferente daquela dos gases usados por Miller e Urey.

A atmosfera utilizada nas experiências de Miller-Urey era composta principalmente por gases redutores, como metano, amônia, e níveis elevados de gás hidrogênio. Geoquímicos hoje acreditam que a atmosfera da Terra primitiva não continha quantidades consideráveis desses gases. Gases redutores são aqueles que tendem a doar elétrons durante as reações químicas. O teórico de origem da vida da UC Santa Cruz, David Deamer, explica isso na revista Microbiology & Molecular Biology:

Este quadro otimista começou a mudar no final da década de 1970, quando se tornou cada vez mais claro que a atmosfera primitiva era, provavelmente, de origem e composição vulcânicas, composta em grande parte por dióxido de carbono e nitrogênio, ao invés da mistura de gases redutores assumidas pelo modelo de Miller-Urey. O dióxido de carbono não suporta a rica variedade de caminhos sintéticos que levam a possíveis monômeros…[6]

Da maneira semelhante, um artigo na revista Science declarou: “Miller e Urey contaram com uma atmosfera “redutora”, uma condição na qual as moléculas estariam cheias de átomos de hidrogênio. Como Miller mostrou mais tarde, ele não poderia sintetizar moléculas orgânicas em uma atmosfera “oxidante” [7]. O artigo diz sem rodeios: “a atmosfera primitiva não se parecia em nada com as condições de Miller-Urey” [8]. Coerentemente a isso, estudos geológicos não descobriram evidências de que uma sopa primordial teria existido em algum momento [9].

Há boas razões para entender porque a atmosfera primitiva da Terra não continha altas concentrações de metano, amônia ou outros gases redutores. A atmosfera primitiva da Terra é considerada como se tivesse sido produzida pela saída de gás dos vulcões, e a composição desses gases vulcânicos está relacionada com as propriedades químicas do manto no interior da Terra. Estudos geoquímicos descobriram que essas propriedades químicas teria sido as mesmas do passado, como elas são hoje [10]. Mas hoje, gases vulcânicos não contêm metano ou amônia, e não estão reduzindo.

Um artigo na Earth and Planetary Science Letters descobriu que as propriedades químicas do interior da Terra tinham sido essencialmente constantes ao longo da história do planeta, levando à conclusão de que “a vida pode ter encontrado as suas origens em outros ambientes ou por outros mecanismos” [11]. As evidências contra a síntese pré-biótica de blocos de construção da vida são tão fortes, que em 1990, a Diretoria de Estudos Espaciais do Conselho Nacional de Pesquisa dos EUA recomendou que os investigadores da origem da vida se encarregassem de “reexaminar a síntese biológica de monômeros nos ambientes da Terra primitiva, como mostrada em modelos atuais da Terra antiga” [12].

Devido a estas dificuldades, alguns dos principais teóricos abandonaram o experimento de Miller-Urey e a teoria da “sopa primordial” que pretendia apoia-lo. Em 2010, o bioquímico Nick Lane da University College London declarou a teoria sopa primordial “não se sustenta” e que “já é passada a sua data de validade” [13]. Em vez disso, ele propõe que a vida teria surgido em fontes hidrotermais submarinas.

Mas ambas as hipóteses da fonte hidrotermal e a da sopa primordial enfrentam outro grande problema.

A evolução química na água está morta

Suponha por um instante que houvesse alguma maneira de produzir moléculas orgânicas simples na Terra primitiva. Possivelmente elas formaram uma “sopa primordial”, ou, talvez essas moléculas se originaram próxima a alguma fonte hidrotermal. De qualquer maneira, os teóricos da origem da vida deveriam explicar como aminoácidos ou outras moléculas orgânicas essenciais se juntaram para formar longas cadeias (polímeros), como proteínas ou RNA.

No entanto, quimicamente falando, o último lugar em que você gostaria de juntar aminoácidos em cadeias seria num grande ambiente cheio de água como a “sopa primordial”, ou perto de uma fonte hidrotermal. Como a Academia Nacional de Ciências dos EUA reconheceu, “dois aminoácidos não se juntam espontaneamente na água. Em vez disso, a reação oposta é termodinamicamente favorecida” [14]. Em outras palavras, a água quebra as cadeias proteicas de volta em aminoácidos (ou outros componentes), tornando muito difícil a produção de proteínas (ou outros polímeros) na sopa primordial.

Os materialistas não tem boas explicações para estas primeiras etapas simples que são necessárias para a origem da vida. A evolução química na água está literalmente morta.

Texto traduzido e adaptado de ENV.

Referências:

[4] Stanley L. Miller, “A Production of Amino Acids under Possible Primitive Earth Conditions”, Science, 117: 528-529 (15/05/1953).

[5] Jonathan Wells, Icons of Evolution: Why Much of What We Teach About Evolution Is Wrong (Washington D.C.: Regnery, 2000);
Casey Luskin, “Not Making the Grade: An Evaluation of 19 Recent Biology Textbooks and Their Use of Selected Icons of Evolution”, em DiscoveryInstitute_2011TextbookReview.pdf (26/10/2011).

[6] David W. Deamer, “The First Living Systems: a Bioenergetic Perspective”, Microbiology & Molecular Biology Reviews, 61:239 (1997).

[7] Jon Cohen, “Novel Center Seeks to Add Spark to Origins of Life”, Science, 270: 1925-1926 (22/12/1995).

[8] Ibid.

[9] Antonio C. Lasaga, H. D. Holland e Michael J. Dwyer, “Primordial Oil Slick”, Science, 174: 53-55 (1/10/1971).

[10] Kevin Zahnle, Laura Schaefer e Bruce Fegley, “Earth’s Earliest Atmospheres”, Cold Spring Harbor Perspectives in Biology, 2(10): a004895 (10/2010) (“Geochemical evidence in Earth’s oldest igneous rocks indicates that the redox state of the Earth’s mantle has not changed over the past 3.8 Gyr”);
Dante Canil, “Vanadian in peridotites, mantle redox and tectonic environments: Archean to present”, Earth and Planetary Science Letters, 195:75-90 (2002).

[11] Dante Canil, “Vanadian in peridotites, mantle redox and tectonic environments: Archean to present”, Earth and Planetary Science Letters, 195:75-90 (2002) (citações internas omitidas).

[12] National Research Council Space Studies Board, The Search for Life’s Origins (National Academy Press, 1990).

[13] Deborah Kelley, “Is It Time To Throw Out ‘Primordial Soup’ Theory?”, NPR (7 de fevereiro de 2010).

[14] Committee on the Limits of Organic Life in Planetary Systems, Committee on the Origins and Evolution of Life, National Research Council, The Limits of Organic Life in Planetary Systems, p. 60 (Washington D.C.: National Academy Press, 2007).

Bem-vindo aos 10 maiores problemas científicos da evolução biológica e química

Estátua de Darwin

Nota do tradutor: este é o artigo introdutório da série de 10 artigos sobre os problemas científicos da evolução biológica e química. A série é baseada no capítulo “The Top Ten Scientific Problems with Biological and Chemical Evolution” de autoria de Casey Luskin no livro More than Myth, editado por Paul Brown e Robert Stackpole (Chartwell Press, 2014). Eis a lista de todos os artigos: Artigo introdutório, Problema 1, Problema 2, Problema 3, Problema 4, Problema 5, Problema 6, Problema 7, Problema 8, Problema 9, Problema 10.


“Não há fraquezas na teoria da evolução” [1]. Assim disse Eugenie Scott, a chefe de fato do lobby darwinista, ao falar com a imprensa em resposta à votação de 2009 do Conselho Estadual de Educação do Estado do Texas nos EUA para exigir que os alunos aprendam sobre as evidências científicas a favor e contra a evolução neodarwinista. Para aqueles que seguem o debate sobre as origens, as palavras da Drª Scott são tão pouco surpreendentes como são familiarizares. Parece que quase diariamente, encontramos os meios de comunicação citando cientistas evolucionistas declarando que as considerações materialistas da evolução biológica e química são “fatos”. Os estudantes que fazem cursos de preparação para a universidade ou de nível universitário sobre evolução são avisados ​​de que duvidar do darwinismo é equivalente a cometer suicídio intelectual — bem como dizer que a Terra é plana [2]. Tal assédio moral é suficiente para convencer muita gente que é muito mais fácil para a sua posição acadêmica, sua carreira e sua reputação simplesmente aceitar o darwinismo. Os poucos redutos que permanecem são intimidados pelo silêncio.

Mas é verdade que não haja “nenhuma fraqueza” na teoria da evolução? Aqueles que expressam dúvidas sobre o darwinismo estariam exibindo coragem, ou seriam tolos que querem nos levar de volta à Idade das Trevas e à era da Terra plana [3]? Felizmente, é muito fácil responder estas perguntas: tudo o que se deve fazer é examinar a literatura técnica científica e perguntar se existem desafios científicos legítimos à evolução química e biológica.

Esta sequência de artigos irá rever esta literatura, e mostrar que existem inúmeros desafios científicos legítimos aos princípios fundamentais da teoria de Darwin, assim como as teorias predominantes de evolução química. Aqueles que mantém dúvidas sobre o darwinismo não precisam ficar aterrorizados por valentões acadêmicos que fingem não haver debate científico a ser realizado.

Texto traduzido e adaptado de ENV.

Referências:

[1] Eugenie Scott, citada em Terrence Stutz, “State Board of Education debates evolution curriculum”, Dallas Morning News (22/01/2009), também citado em Ed Stoddard, “Evolution gets added boost in Texas schools” em http://blogs.reuters.com/faithworld/2009/01/23/evolution-gets-added-boost-in-texas-schools (acessado em 17/02/2015), ou http://archive.today/xCf7a.

[2] Karl W. Giberson, Saving Darwin: How to be a Christian and Believe in Evolution, pag. 53 (HarperOne, 2008) (“biólogos hoje consideram a ancestralidade comum de toda a vida em paridade com a esfericidade da Terra”).

[3] Em todo caso, é um grande mito que a civilização ocidental tivesse outrora acreditado em uma Terra plana. Veja Jeffrey Burton Russell, “The Myth of the Flat Earth”, em http://www.veritas-ucsb.org/library/russell/FlatEarth.html (acessado em 17/02/2015), ou http://archive.today/yGGAX.