Arquivo mensal: maio 2015

O olho humano: um órgão privilegiado

Esquema do olho humano

Ao contrário do consenso evolucionista, estudos realizados tanto por cientistas evolucionistas quanto inteligentistas revelaram a ocorrência de acúmulo de mutações deletérias nos seres vivos, levando à degeneração e perda de informação genética em um curto espaço de tempo [1][2][3]. O que não se observa é um aumento de informação genética, já que para o “surgimento” de novos órgãos funcionais e planos corporais seria necessário acréscimo de muita informação complexa e específica.

Dito isto, vamos nos ater à complexidade revelada atualmente no olho humano. Vejamos: o olho é um órgão bastante excepcional em termos de sua função [4]. A luz passa através da córnea, e em seguida através da lente, onde é focada na retina, que contém os fotorreceptores (cones e bastonetes) para detectar essa luz. Cada haste e cone que recebe luz dispara um sinal para o aparelho neural, que transmite o sinal para o nervo óptico, que passa para o cérebro a fim de realizar o processamento. Tal processo inclui a inversão da imagem e interpretação do que é visto.

O design da retina também é muito peculiar. A retina é composta de fotorreceptores, que enfrentam a entrada de luz, seguida pela camada neural e as camadas subjacentes que fornecem nutrientes e oxigênio através de um leito capilar [4]. Os evolucionistas dizem que a retina humana é “invertida”, uma vez que as camadas neurais estão expostas à luz enquanto as células fotorreceptoras estão afastadas da luz incidente. Para eles, esse arranjo foi o resultado da evolução improvisada em que os supostos erros no projeto se deram através de sucessivas alterações mutacionais a fim de torna-lo funcional. De acordo com Richard Dawkins, um dos principais defensores da evolução:

Qualquer engenheiro poderia naturalmente supor que as fotocélulas apontariam para a luz, com seus fios sendo conduzidos para trás em direção ao cérebro. Ele iria rir de qualquer sugestão de que as fotocélulas [ficam longe da incidência da luz], com seus fios partindo do lado mais próximo da luz. […] Cada fotocélula é, efetivamente, ligada atrás, com o seu fio saindo no lado mais próximo da luz. O fio tem de viajar sobre a superfície da retina a um ponto onde ele mergulha através de um furo na retina […] para se juntar ao nervo óptico. Isto significa que a luz, em vez de ser garantida uma passagem livre para as fotocélulas, tem que passar através de uma floresta de fios de ligação, provavelmente sofrendo, pelo menos, alguma atenuação e distorção (na verdade, provavelmente não muito, mas, ainda assim, é o princípio da coisa que poderia ofender qualquer engenheiro neuronal). Eu não conheço a explicação exata para esse estranho formato. [5] (p. 93)

Dawkins não sabe o motivo da retina dos vertebrados ser projetada de maneira invertida, porque ele realmente não entende como o olho funciona. Na verdade, a retina é projetada com capacidades ligeiramente sub-óptimas de captação de luz, com suas extremidades sensoriais localizadas em um abrigo contra a luz incidente, de modo a garantir a sua funcionalidade por pelo menos muitas décadas [4][6]. Se a retina fosse projetada pelos “engenheiros neuronais” de Dawkins, ela certamente não funcionaria tão bem. Isso porque todo o sistema óptico é impactado pelos raios ultravioletas [4].

O olho contém uma camada especial de células, o epitélio pigmentar da retina (EPR), que tem mecanismos complexos para lidar com moléculas tóxicas e radicais livres produzidos pela ação da luz. Enzimas específicas, tais como as superóxido dismutase, catalases e peroxidases estão presentes para eliminar moléculas potencialmente prejudiciais. Os antioxidantes tais como a-tocoferol (vitamina E) e ácido ascórbico (vitamina C) também estão disponíveis para reduzir o dano oxidativo. Mas, devido o dano contínuo causado pela luz, os discos (juntamente com os fotopigmentos) das células fotorreceptoras são continuamente substituídos pelo EPR [7][8]. Se não fosse este o caso, os fotorreceptores iriam acumular rapidamente defeitos fatais que iria proibir a sua função.

Além disso, as células EPR contêm o pigmento melanina, que absorve a luz difusa e dispersa para melhorar a acuidade visual [7][8]. O EPR se encontra em contato com a camada coroide, que contém um grande leito capilar, que tem o maior fluxo sanguíneo, por grama de qualquer tecido do corpo. Mas, por que existe um fluxo de sangue tão alto na coroide? Uma vez que as células fotorreceptoras estão em constante regeneração, elas exigem uma elevada taxa de troca de oxigênio e nutrientes. Além disso, verifica-se que a elevada taxa de fluxo de sangue é necessária para remover o calor da retina e para evitar danos resultantes do foco de luz [9].

Então, por que o projeto dos “engenheiros” de Dawkins é uma péssima ideia? Dawkins acha que a camada neural deve estar sob os fotorreceptores, colocando-os entre os fotorreceptores e a coroide. Mas, para onde iria o EPR (que é necessário para regenerar os fotorreceptores)? Se fosse entre a camada neural e a coroide, o EPR estaria muito longe dos fotorreceptores para ser regenerado. Além disso, este projeto iria colocar outra camada entre os fotorreceptores e o seu fornecimento de sangue, reduzindo a troca de oxigênio e nutrientes, e minimizando a eficácia da coroide na remoção de calor dos receptores. A ideia de Dawkins impediria os fotorreceptores de serem regenerados e provavelmente levaria a danos causados pelo calor. Tal projeto certamente falharia no primeiro ano de utilização. Nessa perspectiva, ainda bem que, qualquer que tenha sido o designer inteligente, ele não projetou o olho da mesma forma que os evolucionistas o fariam!

Ademais, alguns evolucionistas afirmam que a retina vertida (em que fotorreceptores se encontram na superfície, expostos à luz incidente) de cefalópodes, tais como lulas e polvos, são mais eficientes do que a retina invertida do ser humano [10]. Mas, isso pressupõe que a retina invertida é ineficiente em primeiro lugar. No entanto, eles não conseguiram demonstrar que a retina invertida é um projeto ruim, e que funciona mal; eles ignoram muitas boas razões para isso.

Os evolucionistas também não mostraram que cefalópodes realmente enxergam melhor. Pelo contrário, seus olhos apenas se aproximam de alguns olhos de pequenos vertebrados em termos de eficiência, e eles provavelmente são daltônicos [6]. Evidências indicam que a retina de cefalópodes é menos complexa do que a retina “invertida” em humanos [11]. Sabe-se também que, os cefalópodes em seu ambiente natural são expostos a uma intensidade de luz muito menor do que são os humanos, e eles geralmente vivem apenas dois ou três anos, no máximo. Nada se sabe sobre a vida útil da lula gigante que vive em grandes profundidades em que há pouca luz [6]. Assim, os cefalópodes necessitam de menos proteção contra danos em células fotorreceptoras. Devido ser projetado de forma diferente para um ambiente diferente, o olho de cefalópodes pode funcionar bem com uma retina “vertida”.

É fácil de perceber que os evolucionistas são muito tendenciosos em fazer comparações ‘científicas’ quando lhes convém. Mas, o que dizer do olho humano em comparação com o das lulas [12]? Embora o olho da lula seja maior que o do homem, ambos os olhos são muito parecidos em termos de estrutura é composta de íris, pupila e retina -, mas por que ninguém sugere ancestralidade comum entre essas espécies? Os cientistas inteligentistas sabem que usar a homologia estrutural e fisiológica entre as espécies como base para a ancestralidade comum é ilógico, pois sabem que as semelhanças são apenas um projeto comum que deu certo.

Explicado isto, vamos às descobertas da complexidade desse órgão tão privilegiado. Em 2007, cientistas alemães descobriram no olho uma sofisticada rede de fibras ópticas de alta performance, que canaliza toda a luz com menos distorção antes de chegar às células fotorreceptores, sem qualquer perda, assim como uma placa óptica [13]. É uma camada de células em forma de cone – chamadas de células Müller que funciona como uma segunda lente dentro do olho, canalizando a luz incidente através da camada opaca e colocando-a exatamente onde ela é necessária. Os autores comparam esse sistema a uma placa óptica, mas tais placas normais têm pacotes simples de fibras ópticas. Os pesquisadores descobriram que o olho dos vertebrados é mais complexo, pois as células em forma de funil recolhem mais luz na superfície do olho. Para eles, esta descoberta pode ter aplicações técnicas úteis para engenheiros ópticos humanos.

Em 2010, pesquisadores israelenses descobriram que as células Müller fazem muito mais do que apenas transportar a luz para os fotorreceptores [14]. Elas agem como filtros de ruído, afinadoras e focalizadoras de cor. Pelo menos dois tipos de luz entram nos olhos: luz informativa, que vem diretamente através da pupila, e “ruído” que já foi refletido múltiplas vezes dentro do olho. As simulações mostraram que as células Müller transmitem maior proporção das primeiras, enquanto que as últimas tendem a esvair. Isso sugere que as células agem como filtros de luz, mantendo as imagens nítidas e as cores em foco. Do mesmo modo que a luz se separa num prisma, as lentes dos nossos olhos separam as diferentes cores fazendo com que algumas frequências fiquem fora do foco na retina. O largo topo das células Müller permite que elas recolham qualquer cor separada e voltem a focá-las para dentro da mesma célula-cone. Isso garante que todas as cores de uma imagem fiquem no foco.

Em 2011, um estudo realizado por cientistas norte-americanos sugeriu complexidade no olho humano ao encontrar uma proteína que age como uma bússola [15][16]. Esta proteína chamada criptocromo está presente no olho humano, e é responsável pela sensibilidade ao campo magnético da Terra no que se refere ao senso de orientação. Em 2012, um estudo cingapuriano sugeriu a capacidade do olho humano em funcionar como detector óptico de alta sensibilidade [17]. As células fotorreceptoras da retina detectam a diferença entre diferentes fontes de luz, ou seja, interpretam as propriedades estatísticas da luz. Isto é algo que só pode ser mensurado pelas propriedades quânticas da luz. O estudo ainda sugere que a complexidade do olho humano supera qualquer dispositivo artificial desenvolvido. Como podemos observar, a ciência tem feito grandes descobertas, mas mesmo assim a complexidade do olho humano ainda não foi totalmente compreendida.

Texto de Everton F. Alves, na página TDI.

Referências:

[1] Lynch M, “Rate, molecular spectrum, and consequences of human mutation”, Proc Natl Acad Sci USA, 2010, 107(3):961-8.

[2] Lamb T.D, A Fascinante evolução do olho. Scientific American Brasil. Edição 111 [agosto de 2011]. Disponível no link:
http://www2.uol.com.br/sciam/reportagens/a_fascinante_evolucao_do_olho.html.

[3] Harjunmaa E, Kallonen A, Voutilainen M, Hämäläinen K, Mikkola ML, Jernvall J, “On the difficulty of increasing dental complexity”, Nature, 2012, 483(7389):324-7.

[4] Deem R., Bad Designs in Nature? Why the “Best” Examples Are Bad [março de 2013]. Disponível no link:
http://www.godandscience.org/evolution/designgonebad.html.

[5] Dawkins R. The Blind Watchmaker: Why the evidence of evolution reveals a universe without design, New York: W.W. Norton and Company, 1986.

[6] Gurney PWV. “Is our ‘inverted’ retina really ‘bad design’?”, Journal of Creation, 1999; 13(1):37–44. Disponível no link:
http://creation.com/is-our-inverted-retina-really-bad-design.

[7] Young RW. “The Bowman Lecture: Biological renewal: Applications to the eye”, Trans. Ophthalmol. Soc. UK 1982; 102:42-67.

[8] Guerry RK, Ham WT, Mueller HA. “Light toxicity in the posterior segment”, em Tasman W, Jaeger EA, Clinical Ophthalmology, Vol. 3, New York: Lippincott-Raven, 1998.

[9] Parver LM, Auker C, Carpenter DO. “Choroidal blood flow as a heat dissipating mechanism in the macula”, Am J Ophthalmol, 1980; 89(5):641-6.

[10] Diamante J, “Voyage of the Overloaded Ark”, Discover, 1985, pp. 82-92.

[11] Budelmann BU. “Cephalopod sense organs, nerves and brain”, em Pörtner HO, O’Dor RJ, Macmillan DL, Physiology of cephalopod molluscs: lifestyle and performance adaptations, Basel, Switzerland: Gordon and Breach, 1994.

[12] Nilsson DE, Warrant EJ, Johnsen S, Hanlon R, Shashar N, “A unique advantage for giant eyes in giant squid”, Curr Biol, 2012; 22(8):683-8.

[13] Franze K, Grosche J, Skatchkov SN, Schinkinger S, Foja C, Schild D, Uckermann O, Travis K, Reichenbach A, Guck J, “Muller cells are living optical fibers in the vertebrate retina”, Proc Natl Acad Sci USA, 2007; 104(20):8287-92.

[14] Labin AM, Ribak EN. “Retinal glial cells enhance human vision acuity”, Phys Rev Lett, 2010; 104(15):158102.

[15] Baker RR. “Goal orientation by blindfolded humans after long-distance displacement: possible involvement of a magnetic sense”, Science, 1980; 210(4469):555-7.

[16] Foley LE, Gegear RJ, Reppert SM, “Human cryptochrome exhibits light-dependent magnetosensitivity”, Nat Commun, 2011; 2:356.

[17] Sim N, Cheng MF, Bessarab D, Jones CM, Krivitsky LA, “Measurement of photon statistics with live photoreceptor cells”, Phys. Rev. Lett, 2012; 109:113601.

Problema 5: o aparecimento abrupto de espécies no registro fóssil não condiz com a evolução darwiniana

Imagem por Whit Welles Wwelles14

Nota do tradutor: esta é a parte 5 da série de 10 artigos sobre os problemas científicos da evolução biológica e química. A série é baseada no capítulo “The Top Ten Scientific Problems with Biological and Chemical Evolution” de autoria de Casey Luskin no livro More than Myth, editado por Paul Brown e Robert Stackpole (Chartwell Press, 2014). Ao fim dos 10 artigos, toda a série será publicada em um único texto. Eis a lista dos artigos anteriores: Artigo introdutório, Problema 1, Problema 2, Problema 3, Problema 4.


O registro fóssil tem sido reconhecido por muito tempo como um problema para a teoria da evolução. Em A Origem das Espécies, Darwin explicou que a sua teoria o levou a acreditar que “o número de variedades intermediárias, que outrora existiram na Terra, deve ter sido verdadeiramente enorme” [65]. No entanto, ele entendeu que o registro fóssil não documentava essas formas “intermediárias” da vida, perguntando: “Por que então que todas as formações geológicas e todos os estratos não estão cheios desses elos intermediários?” [66] A resposta de Darwin mostrou a natureza frágil das evidências que apoiavam suas idéias: “A geologia certamente não revela nenhuma cadeia orgânica finamente graduada, e isso talvez seja a objeção mais óbvia e mais grave que possa ser feita contra a minha teoria” [67].

Hoje, cerca de 150 anos mais tarde, de tantos milhares de espécies conhecidas do registro fóssil, só uma pequena fração delas são consideradas candidatas para serem formas intermediárias de Darwin. A evidência fóssil de intermediários evolutivos geralmente está em falta, como um dos modernos paleontólogos evolucionistas Stephen Jay Gould admite: “A ausência de evidência fóssil nos estágios intermediários das principais transições no design orgânico, e mesmo a nossa incapacidade, até em nossa imaginação, de construir intermediários funcionais em muitos casos, tem sido um problema persistente e irritante para as explicações gradualistas da evolução” [68].

Darwin tentou salvar sua teoria de evolução gradual ao afirmar que fósseis intermediários não são encontrados por causa da “imperfeição extrema do registro geológico” [69]. Até Gould percebeu que o argumento de Darwin de que o registro fóssil seja imperfeito “continua sendo a fuga preferida da maioria dos paleontólogos do constrangimento de um registro que parece mostrar tão pouco da evolução diretamente” [70]. Mas, nas últimas décadas, essa desculpa perdeu credibilidade.

Os paleontólogos hoje geralmente reconhecem que, embora o registro fóssil seja imperfeito, ainda é adequado para avaliar as questões sobre evolução. Um estudo na revista Nature informou que “se focar no nível taxonômico da família, os últimos 540 milhões de anos do registro fóssil fornecem uma boa e uniforme documentação da vida do passado” [71]. Outro artigo na Paleobiology avaliou nosso conhecimento do registro fóssil e concluiu que “a nossa visão da história da diversidade biológica é madura” [72]. Paleontólogos cada vez mais estão reconhecendo que os “saltos” entre as espécies, sem intermediários, não são simplesmente resultado de um registro incompleto. Niles Eldredge, um paleontólogo evolucionista e curador do Museu Americano de História Natural, expressa dessa forma junto com Ian Tattersall: “Os saltos dos registros, e todas as evidências, mostram que o registro é real: as lacunas que vemos refletem acontecimentos reais na história da vida – e não artefatos de um registro fóssil pobre” [73]. Esta conclusão não veio facilmente, como um cientista que estudou com Gould sentiu a necessidade de implorar a seus colegas que “os biólogos evolucionistas não podem mais ignorar que o registro fóssil na terra seja imperfeito” [74].

Um padrão de explosões

A percepção eventual de que o registro fóssil não é totalmente incompleto forçou biólogos evolucionistas a aceitar que o registro mostra um padrão de explosões, e não uma evolução gradual dos organismos vivos. Um livro de biologia explica:

Muitas espécies permaneceram praticamente inalteradas durante milhões de anos, e então de repente desapareceram para serem substituídas por uma forma bem diferente, mas relacionada. Além disso, a maioria dos principais grupos de animais aparecem abruptamente no registro fóssil, já totalmente formados, e sem fósseis ainda descobertos que formassem uma transição do seu grupo pai. [75]

Provavelmente o exemplo mais famoso de aparecimento abrupto é a explosão cambriana, na qual quase todos os principais filos dos animais vivos aparecem pela primeira vez. Um livro de biologia dos invertebrados explica:

A maioria dos grupos de animais que são representados no registro fóssil aparecem pela primeira vez, “completamente formados” e identificáveis quanto ao seu filo, no período Cambriano, cerca de 550 milhões de anos atrás. Estes incluem tipos anatomicamente complexos e distintos tais como trilobitas, braquiópodes, equinodermos, moluscos e cordados (…) O registro fóssil não oferece, portanto, nenhuma ajuda no que diz respeito a origem e a diversificação primitiva dos vários filos de animais…[76]

Cientistas evolucionistas reconhecem que eles não conseguem explicar esse aparecimento rápido de tantos planos corporais dos animais por processos darwinianos clássicos, ou outros mecanismos materiais conhecidos. Robert Carroll, um paleontólogo da McGill University, argumenta no periódico Trends in Ecology and Evolution que “a velocidade extrema das mudanças anatômicas e da radiação adaptativa durante esse breve período de tempo requer explicações que vão além das propostas para a evolução das espécies dentro da biota moderna” [77]. Outro artigo sustenta igualmente que “a microevolução não fornece uma explicação satisfatória para a explosão extraordinária de novidades durante a explosão cambriana” e conclui que “as grandes transições evolutivas na evolução animal ainda precisam ser explicadas causalmente” [78]. De maneira semelhante, um artigo de 2009 no periódico BioEssays admite que “elucidar a base materialista da explosão cambriana tornou-se mais ilusório, e não menos, a cada vez que sabemos mais sobre o evento em si” [79].

Mas a explosão cambriana não é de forma nenhuma a única explosão de vida mostrada no registro fóssil. Quanto à origem dos principais grupos de peixes, o ex-geocientista Arthur Strahler da Universidade de Columbia escreve que “esta é uma acusação por conta dos criacionistas que só poderia evocar um uníssono dos paleontólogos como alegação de nolo contendere [sem controvérsia]” [80]. Um artigo na Annual Review of Ecology and Systematics explica que a origem das plantas terrestres” é o equivalente terrestre da tão debatida ‘explosão’ cambriana de faunas marinhas” [81]. Quanto à origem das angiospermas (plantas que dão flores), os paleontólogos descobriram um tipo de evento de “grande bloom” explosivo. Como um artigo diz:

Apesar de muitas pesquisas e análises de diferentes fontes de dados (por exemplo, registro fóssil e análises filogenéticas com uso de traços morfológicos e moleculares), a origem das angiospermas permanece obscura. As angiospermas aparecerem repentinamente no registro fóssil… sem antepassados óbvios por um período de 80 a 90 milhões de anos antes do seu aparecimento. [82]

De modo semelhante, muitas ordens de mamíferos aparecem de forma explosiva. Niles Eldredge explica que “há todo tipo de lacuna: ausência de formas de ‘transição’ graduais intermediárias entre as espécies, mas também entre grupos maiores – entre, digamos, famílias de carnívoros, ou as ordens de mamíferos” [83]. Há também explosão de aves, com grandes grupos de aves que aparecem num período curto de tempo [84]. Um artigo em Trends in Ecology and Evolution intitulado “Evolutionary Explosions and the Phylogenetic Fuse” explica:

Uma leitura literal do registro fóssil indica que o Cambriano primitivo (545 milhões de anos atrás) e o Terciário primitivo (65 milhões de anos) foram caracterizados por períodos extremamente acelerados de evolução morfológica marcando o aparecimento dos filos de animais, e da ordem das aves modernas e dos mamíferos placentários, respectivamente. [85]

Claro que existem muitos outros exemplos em que cientistas evolucionistas acreditam ter encontrado fósseis de transição que exibam a evolução gradual darwiniana. A origem das baleias tem sido chamada de “garoto propaganda da macroevolução” [86], onde se acredita que a cerca de 55 milhões de anos atrás, certos mamíferos terrestres perderam seus membros posteriores e evoluíram para baleias totalmente aquáticas. Em particular, afirma-se que existam fósseis de mamíferos terrestres com ossos de ouvido similares ao das baleias, e fósseis de mamíferos parecidos com baleia que retiveram seus membros posteriores.

Mesmo que o especialista em vertebrados e baleias Phillip Gingerich admita que só temos “fósseis que ilustram três ou quatro passos que unam o precursor das baleias aos mamíferos de hoje” [87], vamos supor por um momento que exista uma sequência completa de fósseis. Isso é suficiente para demonstrar que essa transição ocorreu? Mesmo se houvessem fósseis que se pareçam com as potenciais formas intermediárias, se a história evolutiva geral não fizer sentido, então os fósseis podem não ser transitórios. Nesse caso, a evolução darwiniana de baleias a partir de mamíferos terrestres enfrenta sérios desafios matemáticos da genética de populações.

Muitas mudanças teriam sido necessários para converter um mamífero terrestre em uma baleia, incluindo:

  • Surgimento de narinas, com musculatura e nervo controle
  • Modificação do olho para a visão subaquática permanente
  • Habilidade para beber água do mar
  • Membros anteriores transformados em nadadeiras
  • Modificação da estrutura do esqueleto
  • Capacidade de cuidar das crias embaixo de água
  • Origem das solhas da cauda e musculatura
  • Gordura para isolamento térmico [88]

Muitas dessas adaptações necessárias exigiriam múltiplas mudanças coordenadas. Mas, como vimos no Problema 3, tais mutações simultâneas exigem períodos de tempo extremamente longos para surgir através do mecanismo darwiniano. A evolução da baleia agora incorre em um grave problema. O registro fóssil requer que a evolução das baleias a partir de pequenos mamíferos terrestres deveria ter ocorrido em menos de 10 milhões de anos [89]. Isso parece soar como um tempo longo, mas na verdade ele se torna drasticamente curto, especialmente levando em consideração que as baleias têm tamanhos pequenos de população e tempos longos de geração [90]. O biólogo Richard Sternberg examinou os requisitos desta transição matematicamente e coloca desta forma: “Muitos rearranjos genéticos, muito pouco tempo” [91].

A origem da baleia fornece, assim, um estudo de caso interessante sobre transições evolutivas: numa ocasião rara em que realmente existem fósseis que mostram potenciais traços intermediários, a evolução neo-darwinista sem controle é invalidada pelo período curto de tempo permitido pelo registro fóssil. Se este “garoto propaganda” da macroevolução não subsiste ao escrutínio, o que isso nos diz sobre outros casos em que os evolucionistas falam de supostos fósseis de transição?

A origem do homem e o registro fóssil

Na verdade, ao público é comumente dito que existem fósseis que documentam a evolução dos seres humanos a partir de precursores de macacos, mas um olhar mais atento à literatura técnica conta uma história diferente. Fósseis de hominídeos geralmente se enquadram em um dos dois grupos: espécies parecidas com macacos e espécies parecidas com humanos, com grandes diferenças e sem ligação entre eles. Em 2004, o famoso biólogo evolucionista Ernst Mayr reconheceu o aparecimento abrupto dos seres humanos:

Os fósseis mais antigos de Homo, o Homo rudolfensis e Homo erectus, estão separados dos Australopithecus por uma grande lacuna sem ligação. Como podemos explicar esse aparente salto? Em não tendo quaisquer fósseis que possam servir como elos perdidos, teremos que recorrer ao método consagrado pelo tempo da ciência histórica, a construção de uma narrativa histórica. [92]

À luz dessas provas, um artigo no Journal of Molecular Biology and Evolution chamou o aparecimento do Homo sapiens de “uma revolução genética”, onde “nenhuma espécie Australopithecus é obviamente transicional” [93]. A falta de evidência fóssil para essa transição hipotética é confirmada pelos paleoantropólogos de Harvard David E. Lieberman, Daniel R. Pilbeam, e Richard W. Wrangham:

Das várias transições que ocorreram durante a evolução humana, a transição do Australopithecus ao Homo foi sem dúvida uma das mais críticas em sua magnitude e nas consequências. Assim como acontece com muitos eventos importantes da evolução, há boas e más notícias. Primeiro, a má notícia é que muitos detalhes dessa transição são obscuros por conta da falta de fósseis e de registros arqueológicos [94].

Quanto às “boas notícias”, eles ainda admitem: “embora não temos muitos detalhes sobre exatamente como, quando e onde a transição de Australopithecus ao Homo ocorreu, temos dados suficientes de antes e depois da transição para fazer algumas inferências sobre a natureza global das principais mudanças que ocorreram” [95]. Em outras palavras, o registro fóssil nos mostra o Australopithecus semelhante ao macaco (“antes”), e também semelhante à forma humana Homo (“depois”), mas não mostra fósseis que documentam a transição entre eles. Na ausência dos intermediários, ficamos com “inferências” de uma transição estritamente baseada na suposição da evolução darwiniana. Um comentarista propôs que a evidência implica numa “teoria do big bang” do aparecimento do nosso gênero Homo [96]. Isso não contribui para uma descrição evolutiva convincente da origem humana. [97]

Ao invés de mostrar uma evolução gradual darwiniana, a história da vida mostra um padrão de explosões, onde novas formas fósseis vêm a existência sem precursores evolutivos claros. O antropólogo evolucionista Jeffrey Schwartz resume o problema:

Nós ainda estamos no escuro a respeito da origem da maioria dos principais grupos de organismos. Eles aparecem no registro fóssil assim como Athena apareceu na cabeça de Zeus – totalmente desenvolvida e pronta, em contradição com a descrição evolutiva de Darwin como sendo resultante da acumulação gradual de inúmeras variações infinitesimalmente pequenas…” [98]

Isso impõe um grande desafio à evolução darwiniana, incluindo também a visão de que todos os animais estejam relacionados através da ancestralidade comum.

Texto traduzido e adaptado de ENV.

Referências:

[65] Charles Darwin, The Origin of Species (1859), p. 292 (reimpressão, London: Penguin Group, 1985).

[66] Ibid.

[67] Ibid.

[68] Stephen Jay Gould, “Is a new and general theory of evolution emerging?”, Paleobiology, 6(1): 119-130 (1980).

[69] Charles Darwin, The Origin of Species (1859), p. 292 (reimpressão, London: Penguin Group, 1985).

[70] Stephen Jay Gould, “Evolution’s erratic pace”, Natural History, 86(5): 12-16, (Maio de 1977).

[71] M. J. Benton, M. A. Wills, e R. Hitchin, “Quality of the fossil record through time”, Nature, 403: 534-536 (03/02/2000).

[72] Mike Foote, “Sampling, Taxonomic Description, and Our Evolving Knowledge of Morphological Diversity”, Paleobiology, 23: 181-206 (Spring, 1997).

[73] Niles Eldredge e Ian Tattersall, The Myths of Human Evolution, p. 59 (New York: Columbia University Press, 1982).

[74] David S. Woodruff, “Evolution: The Paleobiological View”, Science, 208: 716-717 (16/05/1980).

[75] C.P. Hickman, L.S. Roberts, e F.M. Hickman, Integrated Principles of Zoology, p. 866 (Times Mirror/Moseby College Publishing, 1988, 8ª ed).

[76] R.S.K. Barnes, P. Calow e P.J.W. Olive, The Invertebrates: A New Synthesis, pp. 9-10 (3ª ed., Blackwell Sci. Publications, 2001).

[77] Robert L. Carroll, “Towards a new evolutionary synthesis”, Trends in Ecology and Evolution, 15(1):27-32 (2000).

[78] Jaume Baguña e Jordi Garcia-Fernández, “Evo-Devo: the Long and Winding Road”, International Journal of Developmental Biology, 47:705-713 (2003) (citações internas removidas).

[79] Kevin J. Peterson, Michael R. Dietrich e Mark A. McPeek, “MicroRNAs and metazoan macroevolution: insights into canalization, complexity, and the Cambrian explosion”, BioEssays, 31 (7):736-747 (2009).

[80] Arthur N. Strahler, Science and Earth History: The Evolution/Creation Controversy, pp. 408-409 (New York: Prometheus Books, 1987).

[81] Richard M. Bateman, Peter R. Crane, William A. DiMichele, Paul R. Kenrick, Nick P. Rowe, Thomas Speck, e William E. Stein, “Early Evolution of Land Plants: Phylogeny, Physiology, and Ecology of the Primary Terrestrial Radiation”, Annual Review of Ecology and Systematics, 29: 263-292 (1998).

[82] Stefanie De Bodt, Steven Maere, e Yves Van de Peer, “Genome duplication and the origin of angiosperms”, Trends in Ecology and Evolution, 20:591-597 (2005).

[83] Niles Eldredge, The Monkey Business: A Scientist Looks at Creationism (New York: Washington Square Press, 1982), 65.

[84] Ver Alan Cooper e Richard Fortey, “Evolutionary Explosions and the Phylogenetic Fuse”, Trends in Ecology and Evolution, 13 (abril de 1998): 151-156; Frank B. Gill, Ornithology, 3rd ed. (New York: W.H. Freeman, 2007), 42.

[85] Alan Cooper e Richard Fortey, “Evolutionary Explosions and the Phylogenetic Fuse”, Trends in Ecology and Evolution, 13: 151-156 (abril de 1998).

[86] J.G.M. Thewissen e Sunil Bajpai, “Whale Origins as a Poster Child for Maccroevolution”, BioEssays, 51: 1037-1049 (dezembro de 2001).

[87] Philip Gingerich, “Fossils and the Origin of Whales”, ActionBioScience.org (dezembro de 2006), no endereço http://www.actionbioscience.org/evolution/gingerich.html.

[88] Cortesia do Dr. Richard Sternberg.

[89] Alan Feduccia, “‘Big bang’ for tertiary birds?”, Trends in Ecology and Evolution, 18: 172-176 (2003).

[90] Ver Walter James ReMine, The Biotic Message: Evolution Versus Message Theory (Saint Paul: MN, Saint Paul Science, 1983).

[91] Comunicação privada com o Dr. Richard Sternberg.

[92] Ernst Mayr, What Makes Biology Unique?, p. 198 (Cambridge University Press, 2004).

[93] John Hawks, Keith Hunley, Sang-Hee Lee, e Milford Wolpoff, “Population Bottlenecks and Pleistocene Human Evolution”, Journal of Molecular Biology and Evolution, 17(1):2-22 (2000).

[94] Daniel E. Lieberman, David R. Pilbeam, e Richard W. Wrangham, “The Transition from Australopithecus to Homo”, Transitions in Prehistory: Essays in Honor of Ofer Bar-Yosef, p. 1 (John J. Shea e Daniel E. Lieberman eds., Oxbow Books, 2009) (citações internas removidas).

[95] Ibid.

[96] “New study suggests big bang theory of human evolution”, (10/01/2000) no endereço http://www.umich.edu/~newsinfo/Releases/2000/Jan00/r011000b.html.

[97] Para uma discussão mais detalhada sobre a evidência fóssil e a origem humana, ver Casey Luskin, “Human Origins and the Fossil Record”, pp. 45-83 em Science and Human Origins (Discovery Institute Press, 2012).

[98] Jeffrewy Schwartz, Sudden Origins: Fossils, Genes, and the Emergence of Species, p. 3 (Wiley, 1999).