Arquivo mensal: setembro 2015

Problema 9: O neo-darwinismo se esforça muito para explicar a distribuição biogeográfica de muitas espécies

Nota do tradutor: esta é a parte 9 da série de 10 artigos sobre os problemas científicos da evolução biológica e química. A série é baseada no capítulo “The Top Ten Scientific Problems with Biological and Chemical Evolution” de autoria de Casey Luskin no livro More than Myth, editado por Paul Brown e Robert Stackpole (Chartwell Press, 2014). Ao fim dos 10 artigos, toda a série será publicada em um único texto. Eis a lista dos artigos anteriores: Artigo introdutório, Problema 1, Problema 2, Problema 3, Problema 4, Problema 5, Problema 6, Problema 7, Problema 8.


Biogeografia é o estudo da distribuição dos organismos no tempo e no espaço, tanto no presente como no passado da Terra. É comum se afirmar que a biogeografia apoia fortemente a teoria neo-darwinista. Por exemplo, o National Center for Science Education (NCSE), um grupo defensor de Darwin, afirma que “a consistência entre os padrões biogeográficos e evolutivos fornece evidências importantes sobre a continuidade dos processos de condução a evolução e diversificação de toda a vida”, e “essa continuidade é o que seria esperado de um padrão de descendência comum”. No entanto, o NCSE exagera seu caso de forma dramática e ignora os muitos casos em que a biogeografia não mostra o tipo de “continuidade” que seria esperada sob um padrão de descendência comum.

Explicações evolutivas da biogeografia falham quando organismos terrestres (ou de água doce) aparecem em um local (como numa ilha ou num continente) onde não exista nenhum mecanismo padrão migratório pelo qual eles chegassem lá a partir de alguma população ancestral. Em outras palavras, quando encontramos duas populações de organismos, a evolução darwiniana afirma que, se voltamos atrás num tempo suficiente, elas devem estar ligadas pela descendência comum. Mas as vezes é praticamente impossível de explicar como essas populações poderiam ter chegado em suas respectivas localizações geográficas do globo a partir de alguma população ancestral.

Por exemplo, um dos enigmas biogeográficos mais graves para a teoria darwiniana é a origem dos macacos sul-americanos chamados de “platirrinos” (platyrrhini). Com base em evidências moleculares e morfológicas, os macacos platirrinos do Novo Mundo são considerados descendentes dos macacos “catarrhini” do Velho Mundo africano. O registro fóssil mostra que os macacos viveram na América do Sul pelos últimos 30 milhões de anos [137]. Mas a história das placas tectônicas mostra que a África e a América do Sul se separaram por volta de 100 a 120 milhões de anos atrás, e que a América do Sul era um continente-ilha isolado há cerca de 80 – 3,5 milhões de anos [138]. Se os macacos da América do Sul se separaram dos macacos africanos em torno de 30 milhões de anos atrás, os proponentes do neo-darwinismo devem explicar de alguma forma como eles atravessaram centenas, se não milhares, de quilômetros de oceano aberto para chegar na América do Sul.

Esse problema para os biólogos evolucionistas tem sido reconhecido por diversos especialistas. Um livro da Harper Collins sobre a evolução humana afirma: “A origem dos macacos platirrinos intrigaram os paleontólogos por décadas (…) Quando e como os macacos chegaram à América do Sul?” [139] Os primatologistas John G. Fleagle e Christopher C. Gilbert escrevem dessa maneira em um volume científico sobre as origens dos primatas:

O aspecto biogeográfico mais desafiador da evolução dos platirrinos concerne à origem de todo o clado. A América do Sul era um continente-ilha durante a maior parte do Terciário e os paleontólogos tem debatido por muito tempo neste século sobre como e por onde os primatas alcançaram a América do Sul. [140]

O especialista em primatas Walter Carl Hartwig é igualmente contundente: “A questão das origens do platirrinos incorpora várias questões diferentes. Como os platirrinos chegaram à América do Sul?” [141] Perguntas básicas e irritantes certamente não dão credibilidade às alegações do NCSE sobre “consistência entre os padrões biogeográficos e evolutivos”.

Para aqueles que não estão familiarizados com os tipos de argumentos feitos por biogeógrafos neo-darwinistas, as respostas a estes enigmas podem ser incríveis demais para serem acreditadas. Um livro da Harper Collins explica: “A hipótese do ‘rafting’ (jangada) argumenta que os macacos evoluíram a partir de prossímios apenas uma única vez na África, e fizeram a viagem de jangada pela água para a América do Sul” [142]. E é claro, não poderia haver apenas um macaco marinheiro, ou o macaco iria morrer em breve sem deixar descendência. Então, pelo menos dois macacos (ou talvez uma única fêmea grávida) deve ter feito a viagem de jangada.

Fleagle e Gilbert observam que a hipótese ‘rafting’ “levanta uma questão biogeográfica difícil”, porque “a América do Sul está separada da África por uma distância de pelo menos 2600 km, tornando muito improvável essa ligação filogenética e biogeográfica entre as faunas de primatas dos dois continentes” [143]. Mas eles estão presos em um paradigma evolucionista, o que significa que eles são obrigados a encontrar uma ligação sendo ela provável ou não. Eles argumentam que, à luz da “ausência de quaisquer antropóides da América do Norte, combinada com a considerável evidência morfológica de uma conexão América do Sul e África do roedor e faunas primatas”, que portanto “a hipótese ‘rafting’ é o cenário mais provável para a origem biogeográfica dos platirrinos” [144]. Em outras palavras, a hipótese do ‘rafting’ que era improvável passou a ser “provável” só porque “sabemos” que a descendência comum tem que ser verdadeira.

Na verdade, a hipótese ‘rafting’ enfrenta sérios problemas, porque tanto os mamíferos como os macacos tem metabolismo alto e requerem grandes quantidades de comida e água [145]. Fleagle e Gilbert, assim, admitem que “a dispersão sobre a água durante a evolução dos primatas parece surpreendente demais para a ordem dos mamíferos”, e concluem, “as razões para a prevalência do ‘rafting’ no curso da evolução dos primatas precisa ser explicada” [146]. Ou, como Hartwig coloca, “A evidência esmagadora do isolamento da América do Sul no final do período Cretáceo-Plioceno torna o aspecto mecânico da dispersão dos platirrinos praticamente insolúvel”, porque “qualquer modelo das origens do final do período eocênico precisa recorrer a um mecanismo de passagem transoceânica (‘rafting’) que é implausível, ou na melhor das hipóteses, suspeito” [147].

E há problemas mais profundos: aparentemente, macacos fizeram a viagem da África para a América do Sul, mas outros primatas africanos menores não colonizaram o Novo Mundo. Se foi tão fácil para os macacos atravessarem de jangada o proto-oceano Atlântico, por que esses primatas menores também não fizeram a viagem? A razão que Fleagle e Gilbert nos dão é que não há nenhuma razão, e tudo se resume ao mero acaso. Em suas próprias palavras, a hipótese ‘rafting’ seria “claramente um acontecimento fortuito” e “alguém poderia especular que por um lance de sorte grande, antropóides foram capazes de “ganhar” os sorteios enquanto os lorises e gálagos não” [148].

Este não é o único caso que faz apelo à hipótese ‘rafting’ ou a outros mecanismos especulativos de “dispersão oceânica” para explicar os enigmas biogeográficos que desafiam o neo-darwinismo. Exemplos incluem a presença de lagartos e grandes roedores caviomorfos na América do Sul [149], a chegada das abelhas, lêmures e outros mamíferos no Madagascar [150], o aparecimento de fósseis de elefantes em muitas ilhas [151], o aparecimento de rãs de água doce em toda a cadeia de ilhas oceânicas [152], e diversas exemplos similares [153]. Esse problema também acontece em espécies extintas, como um artigo no Annals of Geophysics observa o “problema ainda não resolvido de distribuição desconexa de fósseis nas costas opostas do Pacífico” [154]. Uma avaliação de 2005 no Trends in Ecology and Evolution explica o problema:

Um problema clássico na biogeografia é explicar por que determinados táxons terrestres ou de água doce têm distribuições geográficas que são quebradas por oceanos. Por que as faias do sul (Nothofagus spp.) são encontradas na Austrália, Nova Zelândia, Nova Guiné e no sul da América do Sul? Por que existem iguanas nas Ilhas Fiji, enquanto todos os seus parentes próximos estão no Novo Mundo? [155]

Depois de analisar uma série de exemplos biogeográficos “inesperados” que requerem a dispersão oceânica, a avaliação conclui: “estes casos reforçam a mensagem geral do grande evolucionista (Darwin): dado um tempo suficiente, muitas coisas que parecem improváveis podem acontecer” [156].

Dessa forma, os evolucionistas neo-darwinistas são forçados apelar para migrações “improváveis” ou “inesperadas” de organismos, em alguns casos exigindo a travessia de oceanos para explicar os dados biogeográficos. Esse tipo de dados não necessariamente falsifica o darwinismo em absoluto, mas em parte ele desafia o argumento simplista de que a biogeografia dá suporte a descendência comum universal pela congruência entre as vias de migração e história evolutiva. Em muitos casos, a congruência simplesmente não existe.

Texto traduzido e adaptado de ENV.

Referências:

[137] Alfred L Rosenberger e Walter Carl Hartwig, “New World Monkeys”, Encyclopedia of Life Sciences (Nature Publishing Group, 2001).

[138] Carlos G. Schrago e Claudia A. M. Russo, “Timing the origin of New World monkeys”, Molecular Biology and Evolution 20(10):1620–1625 (2003); John J. Flynn e A.R. Wyss, “Recent advances in South American mammalian paleontology”, Trends in Ecology and Evolution, 13(11):449-454 (novembro de 1998); C. Barry Cox e Peter D. Moore, Biogeography: An Ecological and Evolutionary Approach, p. 185 (Blackwell Science, 1993).

[139] Adrienne L. Zihlman, The Human Evolution Coloring Book, pp. 4-11 (Harper Collins, 2000).

[140] John G. Fleagle e Christopher C. Gilbert, “The Biogeography of Primate Evolution: The Role of Plate Tectonics, Climate and Chance”, em Primate Biogeography: Progress and Prospects, pp. 393-394 (Shawn M. Lehman e John G. Fleagle, eds., Springer, 2006) (ênfase nossa).

[141] Walter Carl Hartwig, “Patterns, Puzzles and Perspectives on Platyrrhine Origins”, em Integrative Paths to the Past: Paleoanthropological Advances in Honor of F. Clark Howell, p. 69 (editado por Robert S. Corruccini e Russell L. Ciochon, Prentice Hall, 1994).

[142] Adrienne L. Zihlman, The Human Evolution Coloring Book, pp. 4-11 (Harper Collins, 2000).

[143] John G. Fleagle e Christopher C. Gilbert, “The Biogeography of Primate Evolution: The Role of Plate Tectonics, Climate and Chance”, em Primate Biogeography: Progress and Prospects, p. 394 (Shawn M. Lehman e John G. Fleagle, eds., Springer, 2006) (ênfase nossa).

[144] Ibid. em 394-395 (ênfase nossa).

[145] Ibid. em 404.

[146] Ibid. em 403-404.

[147] Walter Carl Hartwig, “Patterns, Puzzles and Perspectives on Platyrrhine Origins”, em Integrative Paths to the Past: Paleoanthropological Advances in Honor of F. Clark Howell, pp. 76, 84 (editado por Robert S. Corruccini e Russell L. Ciochon, Prentice Hall, 1994).

[148] John G. Fleagle e Christopher C. Gilbert, “The Biogeography of Primate Evolution: The Role of Plate Tectonics, Climate and Chance”, em Primate Biogeography: Progress and Prospects, p. 395 (Shawn M. Lehman e John G. Fleagle, eds., Springer, 2006).

[149] John C. Briggs, Global Biogeography, p. 93 (Elsevier Science, 1995).

[150] Susan Fuller, Michael Schwarz e Simon Tierney, “Phylogenetics of the allodapine bee genus Braunsapis: historical biogeography and long-range dispersal over water”, Journal of Biogeography, 32:2135–2144 (2005); Anne D. Yoder, Matt Cartmill, Maryellen Ruvolo, Kathleen Smith e Rytas Vilgalys, “Ancient single origin of Malagasy primates”, Proceedings of the National Academy of Sciences USA, 93:5122– 5126 (maio de 1996); Peter M. Kappeler, “Lemur Origins: Rafting by Groups of Hibernators?”, Folia Primatol, 71:422–425 (2000); Christian Roos, Jürgen Schmitz e Hans Zischler, “Primate jumping genes elucidate strepsirrhine phylogeny”, Proceedings of the National Academy of Sciences USA, 101: 10650–10654 (20 de julho de 2004); Philip D. Rabinowitz e Stephen Woods, “The Africa–Madagascar connection and mammalian migrations”, Journal of African Earth Sciences, 44:270–276 (2006); Anne D. Yoder, Melissa M. Burns, Sarah Zehr, Thomas Delefosse, Geraldine Veron, Steven M. Goodman e John J. Flynn, “Single origin of Malagasy Carnivora from an African ancestor”, Nature, 421:734-777 (13 de fevereiro de 2003).

[151] Richard John Huggett, Fundamentals of Biogeography, p. 60 (Routledge, 1998).

[152] G. John Measey, Miguel Vences, Robert C. Drewes, Ylenia Chiari, Martim Melo, e Bernard Bourles, “Freshwater paths across the ocean: molecular phylogeny of the frog Ptychadena newtoni gives insights into amphibian colonization of oceanic islands”, Journal of Biogeography, 34: 7-20 (2007).

[153] Alan de Queiroz, “The resurrection of oceanic dispersal in historical biogeography”, Trends in Ecology and Evolution, 20(2): 68-73 (fevereiro de 2005). Para uma discussão mais detalhada, ver Casey Luskin, “The Constitutionality and Pedagogical Benefits of Teaching Evolution Scientifically”, University of St. Thomas Journal of Law & Public Policy, VI (1): 204-277 (outono de 2009).

[154] Giancarlo Scalera, “Fossils, frogs, floating islands and expanding Earth in changing-radius cartography – A comment to a discussion on Journal of Biogeography”, Annals of Geophysics, 50(6):789-798 (dezembro de 2007).

[155] Alan de Queiroz, “The resurrection of oceanic dispersal in historical biogeography”, Trends in Ecology and Evolution, 20(2): 68-73 (fevereiro de 2005).

[156] Ibid.

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