O Design Inteligente é mais antigo do que você pensa


Imagem: Anaxagoras, via Wikimedia Commons (domínio público).

A história do Movimento do Design Inteligente (MDI) moderno nos EUA pode ser traçada a partir do seminário organizado por Phillip Johnson na cidade de Pajaro Dunes em 1993. Contudo, o Simpósio do Wistar Institute de 1966 e uma marcha persistente dos céticos de Darwin certamente prepararam o solo para aquele encontro. Mas o Design Inteligente (DI), enquanto conceito, data de muito antes do século XX. Assim como o materialismo moderno e o fisicalismo tem as suas raízes nos atomistas antigos (notavelmente Leucipo, Demócrito e Lucrécio), o DI também tem uma história rica e profunda.

Se é para identificar algum pensador que tenha fundado o DI, Anaxágoras cairia bem. Um dos preeminentes filósofos gregos pré-Socráticos, Anaxágoras (500-428 a.C) mantinha muitas ideias que podem soar estranhas para nós. Ele acreditava na divisibilidade infinita da matéria, e que todos os elementos naturais poderiam dar origem somente àqueles do seu mesmo tipo, assim, nada na natureza poderia surgir daquilo que não fosse como si mesmo.

O biógrafo de Anaxágoras no New Dictionary of Scientific Biography, James Longrigg, mostra que as ideias dele sobre matéria e astronomia, “apesar de serem bastante racionais”, não foram tão influentes. Mas a sua visão de uma “causa movente imaterial”, o Nous ou Mente, que colocava tudo em movimento, “preparou o caminho para uma visão amplamente teleológica da natureza”. Considera-se que o seu conceito de Nous enquanto força motora ativa na natureza deu a ele a alcunha de “Sr. Mente”.

Anaxágoras deu explicações para a luminescência da lua, os solstícios, cometas, eclipses, e outros fenômenos astronômicos. Ele chegou até a investigar sobre embriologia, meteorologia, geologia e cosmologia. Ele, junto com os outros pré-Socráticos que tentaram estabelecer uma explicação racional para tudo, alimentou o tipo de pensamento sistemático essencial para a investigação científica.

Longe de ser um oponente da evolução, Anaxágoras foi um dos seus primeiros contribuidores. “De acordo com Platão e Aristóteles”, escreve o famoso geólogo-paleontólogo americano Henry Fairfield Osborn, “esse filósofo foi o primeiro a atribuir adaptação na Natureza a um Design Inteligente, e foi por isso o fundador da Teleologia” (The Greeks to Darwin; an outline of the development of the evolution idea). Segundo Osborn, a contribuição de Anaxágoras para o design na natureza foi, na verdade, baseada na apreciação dos processos de adaptação, um conceito fundamental no pensamento evolutivo.

Embora a teleologia, enquanto componente do pensamento de Anaxágoras, ter sido as vezes menosprezada e em alguns casos até ter sido negada, Jonathan Barnes observa o seguinte:

Teleologia pessoal não é normalmente uma característica da ciência natural; ainda assim, ela entra no mundo natural se os fenômenos naturais são vistos como operações de um artífice inteligente. Anaxágoras tomou essa visão; e é simplesmente perverso negar que ele foi um teleologista no mais inteligível perfeito sentido (…) A Mente “quer” (boulêtheis) construir um mundo; a existência do cosmos é explicada como o objetivo de um ator inteligente. Se a palavra “querer” não ocorrer nos fragmentos de Anaxágoras, os verbo “conhecer” e “ordenar” ocorre: a mente ordenou ou arrumou as coisas; e ela sabia que assim deveria ser (Jonathan Barnes, The Presocratic Philosophers).

Respeitando os limites do que a ciência pode dizer, o Design Inteligente moderno diz pouco sobre a natureza do designer que ele infere, somente que “existem aspectos descritivos dos seres vivos e do universo que tem como melhor explicação uma causa inteligente — isto é, pela escolha consciente de uma agente racional — ao invés de um processo não controlado”, como colocou Stephen Meyer em Signature in the Cell. Na proposição do Nous, Anaxágoras fez uso do raciocínio abdutivo que preparou o caminho para uma longa e venerável tradição de Design Inteligente.

A história de Anaxágoras dá algumas lições instrutivas a quem costuma afirmar que o Design Inteligente seja algo como o criacionismo cristão que se opõe à evolução e à ciência:

  • O fundador do Design Inteligente não era um oponente da evolução; na verdade, ele ajudou no seu desenvolvimento.
  • Seu exemplo demonstra que não há nada na evolução per se que se oponha ao propósito na natureza.
  • Antecedendo o Cristianismo e o livro do Gênesis, as suas contribuições dificilmente poderiam ser chamadas de cristãs ou criacionistas.
  • Como Anaxágoras introduziu a filosofia Jônica e a investigação científica em Atenas, sua teleologia não representava o fim da ciência, mas sim o seu início.
  • A presunção do darwinismo como sinônimo de ciência é imprecisa e completamente a-histórica.

Parece claro que os críticos do Design Inteligente, se tivessem tanto apreço pela educação científica como costumam dizer, teriam que reconhecer os fundamentos de um conceito que tem uma história longa e duradoura no pensamento ocidental. Ciência é muito mais do que uma atividade de bancada; ela tem contextos históricos e culturais também, este que inclusive serve para informar aquele a respeito dos questionamentos que fazemos e das respostas que oferecemos.

Texto traduzido e adaptado de Evolution News & Views.

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