Capítulo 10 — Getting Matter from Information


Being As Communion, a Metaphysics of Information
de William Dembski (237 páginas)

Os capítulos de 10 a 13 podem ser lidos em bloco. Nesse bloco, fundamenta-se o modo como a informação deve ser compreendida enquanto substância real e fundamental da universo, e como a matéria e a energia são emergentes da informação.

No capítulo anterior, Dembski tratou das leis teleológicas naturais e do modo como elas poderiam ser. Nesse sentido, o que seria a matéria em face dessas leis? Nagel usa a lógica refutadora do materialismo para argumentar em favor das leis teleológicas naturais, e portanto, a matéria não deve ser tudo o que existe na natureza; deve existir algo mais. Dembski argumenta que a substância fundamental da natureza é a informação, e é neste capítulo que ele procura demonstrar que a própria matéria é uma forma de informação.

Segundo o fundador da Cibernética, Norbert Wiener, “Informação é informação, não é nem matéria e nem energia. Nenhum tipo de materialismo que não admita isso poderia sobreviver hoje”. A habilidade que a matéria tem de carregar informação não representa nenhum problema, já que esta pode ser instanciada na matéria. Mas será que o materialismo poderia nos dizer o que é a informação? Ou será que a própria matéria é um tipo de informação? No materialismo, quando a matéria carrega informação, ela o faz no sentido de que forças não-teleológicas da natureza sejam a causa dessa informação. Então, o universo é concebido como um gigantesco jogo de bilhar, no qual as bolas (ou seja, as unidades materiais) interagem de modo mecânico com outras bolas (outros itens materiais), oferecendo dessa forma uma visão simples e facilmente concebível daquilo que constituiria toda a realidade. Mas há um problema: a matéria é uma abstração feita através de várias percepções que temos dos objetos com os nossos sentidos, o que dificultaria fazer da matéria como base de uma ontologia. Então, não há problemas em ser um materialista, desde que isso seja entendido como um pressuposto de fé. No entanto, não é este materialismo fideísta que é encontrado, mas sim um materialismo científico, que procura justificar o materialismo com base na ciência, mais exatamente no sucesso que a ciência conquistou ao procurar descrever o mundo apenas em termos materialistas. Mas o sucesso da ciência é um fator temporário, e o máximo que temos a dizer é que esta ciência tem tido sucesso no modo em que é conduzida hoje, não havendo nenhuma garantia de que ela continuará sendo bem sucedida no futuro sob princípios materialistas. O materialismo é, portanto, uma hipótese de trabalho para a investigação e compreensão de alguns aspectos da natureza. Isso estaria longe de uma crença dogmática no materialismo enquanto filosofia obrigatória para qualquer um que queira compreender a natureza da natureza.

Uma ciência empírica nunca observa a “matéria” enquanto tal; a matéria é uma inferência feita a partir da observação. É a observação, portanto, que vem anteriormente à matéria. A ciência como conduzida hoje tende a adotar o materialismo, ou uma versão mais branda dele, o materialismo metodológico. A filosofia, que exige consistência e coerência num sistema de pensamento, descobriu que o materialismo é muito difícil, senão impossível, de ser justificado como filosofia básica. A razão disso é que a observação, enquanto fator anterior à matéria, não poderia nos dizer que vem antes dela mesma: não é possível sair do ato observacional e verificar que a realidade realmente confere com a observação. Então, de onde vem a confiança de que a observação oferece de fato a visão verdadeira do universo? George Berkeley virou este problema de ponta-cabeça, dizendo que não existe um universo independente da mente para ser observado, mas existe a mente que, em seu ato observacional, daria realidade às coisas. Para ele, existir é ser percebido, o que torna os objetos materiais como sendo expressões mentais, e não o contrário, como pensam os materialistas. O que a mera observação nos oferece é somente uma experiência sensorial. Infelizmente, mesmo que a percepção sensorial esteja articulada em linguagem formal e seja sintetizada com uma lógica poderosa, não seria possível ir muito longe da própria experiência, e certamente não levaria também à riqueza ampla da realidade quando se procura compreender coisas como a bondade, a verdade ou a beleza.

No capítulo 3, o Problema Tang foi considerado em relação ao materialismo, o que levou à conclusão de que a matéria, quando tomada nas suas partes mais elementares e reconstituída, não é capaz de renderizar toda a realidade. O problema do materialismo e do empirismo em reconstituir o mundo, seja em partículas elementares ou em experiências sensoriais, é em suma informacional. Quando se faz ciência, nem a matéria nem a experiência sensorial são obtidas em estado puro. Na verdade, são encontrados alguns padrões, em exclusão a outros, ou seja, são encontradas informações. A ciência estuda processos que deixam rastros, que por sua vez exibem padrões característicos em exclusão a outros. No fundo, o que a ciência estuda é a informação. É interessante que os objetos físicos sejam compreendidos como reais, mas a sua realidade só é percebida por causa dos padrões que eles apresentam. Como regra geral, nós conhecemos as coisas pelos padrões que elas apresentam.

De acordo com esta visão informacional da realidade, tudo o que é real é capaz de produzir um conjunto característico de padrões. Em outras palavras, dizer que uma entidade existe, ou dizer que ela é real, é dizer que essa entidade é capaz de produzir certos tipos de padrões em detrimento de outros. Em termos aristotélicos, poderíamos dizer que a realidade é medida quanto ao seu potencial de produzir informação. E onde esses padrões estão? Eles estão no mundo real, e eles são descobertos enquanto se tomam as matrizes de possibilidades, dentro das quais se identifica aquelas possibilidades que foram realizadas em exclusão às outras. Esta abordagem informacional da realidade também não viola o empirismo, pois a observação nos diz qual foi a possibilidade que foi realizada dentro da uma matriz de possibilidades, ou seja, o papel da observação continua sendo crucial dentro dessa abordagem. Além disso, o questionamento científico, feito com essa abordagem, deixa de ter as pretensões de ser independente do contexto e também de ser feito a partir de experiências sensoriais elementares, já que estas nunca vêm isoladas, mas são concebidas conforme o interesse ou o conhecimento prévio do experimentador. É a matriz de possibilidade que revela esse interesse ou conhecimento prévio, e direciona as percepções para certos padrões em detrimento de outros.

O que tudo isso teria a dizer sobre a matéria? A matéria, sendo uma abstração feita a partir de diferentes tipos de objetos, não é capaz de deixar algum rastro característico padrão, e por isso, do ponto de vista da informação, a matéria não existe. Poderiam existir diferentes tipos de matéria, desde que esses tipos exibissem características padrões em circunstâncias concretas em relação a outras coisas já existentes, assim fazendo sua realidade conhecida através desses padrões. A matéria, em si mesma, não é real mas é somente uma abstração. Dessa forma, o materialismo continua sendo uma opção válida, mas precisaria a partir de agora se demonstrar verdadeiro, em vez de arrogar para si mesmo privilégios que não for capaz de sustentar. O modo pelo qual tal demonstração poderia ser feita seria pela catalogação de objetos materiais fundamentais e seus padrões característicos, com os quais a realidade tal como a conhecemos poderia ser reconstruída. A proposição de que “tudo seja material” precisaria ser provada antes, o que continua sendo permitido: a matéria não como abstração, mas sim nas suas formas particulares, formas às quais nós deveríamos recorrer.

Surge, ao final, a questão: o que é mais real, os objetos materiais ou a informação característica dos objetos materiais? Dembski diz que é a informação. Para ele, nós nunca poderíamos sair por fora da informação para compreender a matéria como tal. Nós vivemos, nos movemos e existimos dentro de uma matriz de informação, e não há como sair para fora dessa matriz. Além do mais, de acordo com a narrativa da criação segundo a tradição judaico-cristã, é possível que o lado de fora nem exista. Esta tradição religiosa ensina que a criação seria o primeiro ato informativo, efetuado pela palavra de Deus. Nesse sentido, a busca por um substrato mais básico do que a informação seria inútil, e tal busca nunca sairia desse circuito da informação.

Próximo capítulo:
Capítulo 11 — The Medium and the Message

Capítulo anterior:
Capítulo 9 — Natural Teleological Laws

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Referências

William Dembski, Being As Communion: A Metaphysics of Information. Ashgate Publishing Company, 2014, pp. 77-89.

Site do livro beingascommunion.com.

Site da Amazon para compra do livro.

Entrada sobre o livro Being As Communion na WikiTDI.

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